Something Stupid
"Mas tudo que é grande é tão difícil de compreender quanto de encontrar." Espinoza

Quarta-feira, Janeiro 28, 2004

Just Casual Talk

Esqueci de avisar que publiquei na Sociedade. Post do dia 24.

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Sempre quis ter um mordomo. E já disse que sou fã de barbeiro.

posted by Chico | 13:41 Comentários:

Os Estatísticos Contra Atacam

No telejornal de agora da hora do almoço, uma reportagem mostra que as águas do lixoral paranaense são mais quentes que as dos vizinhos estados do sul do país. E agora comprovou-se cientificamente, segundo o "cientista" entrevistado, que quanto mais ao norte do país, mais quente fica a água. A ciência é realmente um espanto de quão avançada está em dizer o óbvio.

Mas enganam-se todos. Aqui é mais quente que em RS e SC porque o lixoral é minúsculo, a jacuzada é em número gigantesco e portanto, o mijo abunda.

posted by Chico | 13:38 Comentários:

Ordem e Progresso

Assaltaram uma agência do Bradesco aqui perto. Dez minutos depois penduraram uma grande faixa: "Fechado Por Motivo de Assalto". Estamos evoluindo, não resta dúvida.

posted by Chico | 13:37 Comentários:

Por que não falo de literatura por aqui ?

Queria que a Academia Brasileira de Letras pegasse fogo bem na hora do chá de um dia com presença total dos "imortais". E que eu fosse o porteiro do prédio.

Queria também ser Paulo Coelho. Da minha parte na posteridade, quero-a em dinheiro e já. Assim posso comprar livros de verdade e lê-los sossegadamente em minha biblioteca privada.

posted by Chico | 13:36 Comentários:

Não costumo frequentar exposições de artes plásticas. Não gosto do cheiro de banheiros públicos.

posted by Chico | 13:35 Comentários:

Li a transcrição do debate entre o Olavo e o Alaor Caffe, ocorrido na USP no final do ano passado e que movimentou o "cenário" blogueiro de "direita". O problema está realmente com Olavo de Carvalho. Em vez de trucar, ele grita que tem o gato. Assim não dá jogo mesmo.

posted by Chico | 13:35 Comentários:

Domingo, Janeiro 25, 2004

Leio na embalagem da minha barrinha de cereal que um dos ingredientes é o "açúcar invertido". E se não for sal ?

posted by Chico | 17:41 Comentários:

Hail, Hail

Eu implico com estatísticas. Eu sei que elas devem servir para alguma coisa. Mas em quase tudo que elas se metem, ninguém mais consegue conversar. Elas falam alto demais e são grosseiras.

Veja-se o futebol, por exemplo. Não há mais possibilidade de se acompanhar comentários nos intervalos e as análises do final do jogo. Fica aquela chatice de que o time A deu 598 chutes a gol, teve 79% da posse de bola, desarmou o adversário 3.839 vezes e teve 1.345 escanteios a seu favor. Mas perdeu de 1 x 0 pro time B que só deu 3 chutes a gol e mais nada. O velho quem não faz, leva, dito em míseros trê segundos já dizia muito mais e melhor do que todas as planilhas desses supostos "experts" em futebol. Não à toa, no chatíssimo campeonato por pontos corridos essas bestas humanas fiquem achando lindo a porcentagem de pontos do campeão, etc. e tal. O futebol não deveria ser chato assim.

E isto é só um exemplo. Em quase tudo as estatísticas se metem para fazer confusão. Na Veja da semana passada, a revista apresenta um economista que "comprovou" por uma batelada de dados, que nos estados americanos em que legalizou-se o aborto, o índice de criminalidade é menor do que nos estados em que o proibem. Brilhante comprovação. Eu não preciso ter uma batelada de dados para afirmar com toda segurança que se legalizarmos os homicídios e os roubos, os índices de criminalidade serão ínfimos. Uma maravilha, não ? Há quem adore viver neste mundo de faz-de-conta.

Mas ele vai mais longe. Munido de todos os dados estatísticos possíveis, ele comprova que uma criança indesejada que viva numa família desestruturada, a probabilidade dela vir a ser uma criminosa é muito maior do que numa família estruturada e em que ela foi desejada. Ou seja, melhor se ela tivesse sido abortada. Hitler pensava que se matássemos todos os judeus, também teríamos um mundo melhor.

Só mais um exemplo e eu juro que paro. Nesta sanha imbecil pelo controle de armamentos neste país, houve uma profusão de dados estatísticos que "comprovam" por A mais B a necessidade de proibi-las. Até agora ninguém me respondeu de que forma esses dados são confiáveis se aquele que, portando uma arma de modo legal, ao evitar um crime contra si ou terceiros não registra queixa ou avisa o IBGE ?

Eu sou exemplo vivo disto. Saindo de um festa na casa de um colega, acompanhado de mais uns cinco amigos, parou um fuscão azul com quatro sujeitos mais do que mal encarados e vieram caminhando em nossa direção. Um dos meus amigos que possuía arma, na mesma hora a sacou e apontou para os sujeitos, que sem dizerem absolutamente nada deram meia volta e foram embora. Quantas vezes isto já aconteceu ? Não se sabe porque não há estatística alguma. Portanto, a estatística apresentada não pode ser levada a sério, mas somente como mais um dado a ser analisado num país em que a polícia não consegue dar segurança à população e o crime orgnizado comanda mais da metade das grandes cidades do país.

Naquela reportagem da Veja, eles informam que o tal cientista recebeu um importante prêmio por seus "estudos". E a revista dá mais um: o do bom senso. É uma pena realmente que me tenham tirado o direito de portar armas. Ainda bem que logo vão me liberar para matar criancinhas nas barrigas das mães. Tudo de muito bom senso.

posted by Chico | 17:40 Comentários:

See You Soon

Tio Neneca estava aflito. Andava de um lado para o outro na sala de jantar. Fumava um atrás do outro sem terminar nenhum cigarro. A casa estava quieta como nunca antes eu tinha visto. Minha irmã estava no quarto, não quis descer. Zezinho e Marquinho estavam na sala de TV, junto com o pai. Ouço mamãe chegar.

Ela entrou rápida e nervosa. Perguntou pelo tio, que já vinha vindo da sala ao lado. Mamãe disse que tia Lucinha não suportou. Eu ia perguntar, mas tio Neneca deu um grito tão alto e começou a chorar tanto que me assustei. Minha mãe lhe consolava e meu pai tinha sumido. Zezinho e Marquinho não tiravam os olhos da TV. Eu não sei porque, mas quis abraçar o tio. Me grudei na perna dele.

Vô Inácio entrou logo depois, com uma cara muito triste e abatido. Nada disse e foi para seu quarto. Minha mãe pediu licença para nós e levou meu tio embora. Não encontrei meu pai. Fui lá para trás da casa, e subi no abacateiro. Desconfio que tia Lucinha não volta mais.

posted by Chico | 17:39 Comentários:

Quarta-feira, Janeiro 21, 2004

A Russa

A coisa ruim, a mulher mais feia do mundo, aquela que não foi agraciada com uma deformidade física porque isto justificaria sua feiura. Uns a chamam de bruxa porque são simpáticos, outras a chamam de Sofia (sim, a do Nazareno) porque se acham divertidos.

Ele descobriu que ela possui um veículo. Imediatamente pensou em quem foi o louco do Detran que liberou carteira para esta ratazana com cara de tamanduá-bandeira. Previu um sujeito ou sujeita qualquer descuidadamente olhando pelo espelho retrovisor e se deparando com aquilo. Ninguém ficaria em condições de continuar dirigindo após esta visão.

Não saberia dizer que veículo era. Bastava a certeza de que veio direto do Inferno. Viu o horror na cara do manobrista do estacionamento, que apesar da pouca idade, perdeu sua inocência em definitivo. Vislumbrou aquele ser disforme de costas, embora não se possa dizer ao certo quando ela está de frente. Um calafrio lhe percorreu a espinha lembrando dos tempos de colégio, o que inclui a faculdade.

Ela se virou e o tempo parou. O Tempo é um filho da puta mesmo. Em câmera lenta ele se movimentou até que ela terminasse de contorcer o que supostamente seria sua espinha e ficar de frente (?) para a rua. Era ela. Impossível duas. Impossível a clonagem.

Ela veio andando com aquele jeito malemolente, sem controle das pernas. Aquele leve tremelique na cabeça que lembrava um Parkinson controlado, a boca sempre aberta e a baba branca ligando os dentes superiores e inferiores, sempre à vista. O cabelo nunca lavado ainda era o mesmo. Sempre do mesmo tamanho. Lembrou-se que muitos desconfiavam que ela já nasceu com aquele musgo pelos ombros.

Os óculos ainda são os mesmos. Ainda bem porque não se pode assim olhar diretamente os olhos da besta, que são mais do que vesgos. O figurino é o mesmo. Camiseta de loja de criança, calça jeans e o indefectível tênis vermelho. E agora também tem uma pastinha surrada carregada na mão esquerda, que ela segurava como se estivesse tendo um derrame.

Ela cruzou a rua e ele ainda sem respirar em frente à janela do segundo andar, na esperança de que ela desviasse do seu prédio. O café esfriava na pequena xícara à sua frente. Mas não havia dúvidas. Embora não se podendo definir a priori se aquele andar era em linha reta, ela entrou direto no prédio. Ele correu então para a porta da frente, trancou-a pela segunda vez, apagou as luzes e mandou a secretária não dar um pio sequer.

Não se sabe em que andar ela fica. Por via das dúvidas, desde então ele tomou as precauções básicas. Nunca voltou ao 13º . Passou a utilizar as escadas para evitar o contato nos elevadores. Nunca mais ficou de conversa fiada nos corredores ou portaria. Medidas básicas mas que eram paliativas, porque Murphy é aliado dela.

Dias depois, enfim, aconteceu. Era final do expediente. Ali pelas sete da noite. Afrouxou a gravata, tirou o paletó, desligou as luzes e trancou a porta. Duas vezes. Desceu pelas escadas tenso. Eram quatro lances até chegar no S2, onde tinha sua vaga de garagem. Quando chegou, as luzes não se acenderam automaticamente, como era o costume. Para se achar, apertou o botão do alarme do carro que com suas duas piscadas lhe avisou onde estava. Em sua direção caminhou lentamente, percebendo o terrível barulho do silêncio. Eis que escutou a campainha do elevador.

Abriu-se a porta do elevador preenchendo a garagem com aquela luz branca sem graça e sem vida. Em razão dela, viu que além do seu carro, havia outro ao longe, num obscuro espaço que nunca imaginou fosse uma vaga de garagem. Como ninguém saía do elevador, cometeu o maior erro da sua vida. Olhou.

E lá estava aquilo. O capeta cujo rosto atearam fogo e apagaram a tamancadas lhe olhou e por segundos ficou parada o fitando. Ele já suava como um porco, estava com a boca seca, as pernas bambas e certamente pálido. Ela disse algo absolutamente ininteligível. Ele tentou responder, mas palavras lhe faltaram.

O horror de Dante no inferno era muito menor do que o dele, posso garantir. Imaginou de tudo naqueles instantes. Cobras, lagartos, aranhas, bichos nojentos saindo dos bueiros daquele sub-solo vindo se encontrar com sua rainha. Um cheiro forte e fétido nublaria sua mente. Um trono feito de encanamentos e borracha antiderrapante surgiria de dentro do segundo elevador e a rainha das trevas declararia aberto o julgamento.

Ele já estava praticamente dentro do carro quando ela conseguiu se aproximar. Ela quis lhe cumprimentar como gente, dando beijinho na bochecha, quiçá dois, ó horror, e se fossem três ? Ele se abaixou, fingiu ter derrubado algo. Ela continuava falando e ele já não sabia se estava respondendo. Tudo acontecia muito rapidamente mas parecia que levava anos. O elevador fechou as portas. A luz da garagem não acendeu mesmo.

Felizmente, já não se sabe narrar ao certo, o que aconteceu. De suas lembranças, apenas flashs dele ter pego um pedaço de cano que jazia na garagem, de longa data sem serventia. Gritos indefiníveis. Alguma coisa respingava nele, mas ele não quis saber do que se tratava. Após alguns golpes no vazio e outros certeiros, sentiu algo que parecia uma mão na sua cara e o cheiro daquilo que parecia ser o cabelo da besta em forma de besta. Sufocado, desmaiou.

Acordou já no hospital. Estava no soro e ninguém no quarto. Chamou a enfermeira que então lhe contou que o porteiro do prédio havia escutado gritos vindo da garagem e chamou a polícia que o encontrou desacordado ao lado de um bicho gigante morto. Chamaram uma ambulância e ele então estava ali, somente por precaução, já que as escoriações não eram graves. Então adentrou o quarto um policial que lhe perguntou sobre o acontecido. Explicou o que acima lhes narrei, escondendo um ou outro detalhe, como por exemplo, a existência da besta em forma de besta.

O policial avisou que o bicho foi levado para o laboratório de uma universidade onde fariam estudos para descobrir afinal, o que era aquilo. Ainda aquela noite passou no hospital, sob observação. O sono não foi tranquilo, como seria de se prever. Acordou assustado várias vezes. O pesadelo era o mesmo, mas sempre inacabado. Quando chegava a hora em que ela falava o "õrã, õrã, võcê põr ãqûî ! Lêmbrã dê mîm ?", ele acordava banhado de suor e tremendo de medo.

Ele nunca mais seria o mesmo, como gostava de dizer. Jamais esqueceria o dia em que desceu ao inferno e dele retornou. Mas a vida continuou. Hoje já faz treze meses desde o fatídico dia. Já não tinha medo mais dos elevadores e até na garagem tinha voltado a guardar o carro.

Até esta tarde. Que estava agradável. Como sempre, ele fez seu ritual. Um breve intervalo. Um cafezinho que sempre tomava de pé, olhando pela janela o movimento da rua em frente. Olhou o estacionamento que já não lhe lembrava nada. Reparou no manobrista, o mesmo guri, já mais corado. E então, viu novamente o horror nos seus olhos.

Seu coração bateu em velocidade absurda. Ficou fraco e não conseguiu mais segurar a xícara, que caiu e se quebrou fazendo um estridente barulho. Sentiu que perderia os sentidos em poucos instantes, o que efetivamente aconteceu. Não sem antes ter olhado aquela mão esquerda, em forma de derrame, segurando a pastinha marrom atravessando a rua.

A última coisa que se lembra foi de ter ouvido um riso gelado e seco vindo da rua e em seguida alguém falando atrás dele: "Õrã, Õrã..."

posted by Chico | 21:03 Comentários:

Domingo, Janeiro 18, 2004

Fla x Flu

Nesse encontro turístico entre presidentes de países das Américas, realizado no México recentemente, Bush, para atacar a ditadura cubana e os suspeitos governos da Venezuela e do Haiti, tratou a liberdade como direito "divino".

Levantei uma sobrancelha e cocei meu queixo, na falta da barba. E lembrei-me de Capeaux, falando de Jacob Burckhardt: "não existe poder temporal de direito divino; mais provavelmente será de direito satânico".

E confirmando minhas suspeitas, vejo que Hugo Chavez rapidamente respondeu: "a César o que é de César, a Cristo o que é de Cristo". Não é por nada não, mas acho que o Bush deu a desculpa que esse cara nem procurava...

Os fundamentos do Estado laico. Quais são ? Liberdade, igualdade, fraternidade ? Da primeira vez, rolaram cabeças. Depois ? Ora, por onde passa um boi, passa uma boiada.

Os gays querem se casar. A Igreja não deixa. O Estado, quase. Mas uma coisa nada tem que ver com a outra. Afinal, o casamento do Estado não é o mesmo casamento da Igreja. Mas as mulas homossexuais fazem passeatas em frente às igrejas querendo o "reconhecimento" do casamento entre gays. Afinal, vocês querem ter papel passado ou casar de branco ? E as mulas "religiosas" não se contentam com a proibição da sua Igreja. Querem a do Estado também. A César o que é de César.

O Estado francês proibiu nas escolas, manifestações religiosas através do uso de apetrechos, como por exemplo, cruzes e os lenços das mulheres mussulmanas. A medida é contra mussulmanos. Há um limite de "tamanho" no apetrecho, o que praticamente retira o crucifixo pendurado no pescoço, da proibição. O fundamento é óbvio: o Estado é laico, a escola é do Estado, logo... Bons tempos aqueles em que a briga era pela liberdade de não usar uniformes. A Cristo o que é de Cristo.

A Cássia Kiss disse na Veja que abortou um filho em 1987, para não atrapalhar a carreira. Perdeu o marido que amava e se arrepende amargamente do que fez até hoje. Criminosa !, gritam os pró-vida. Ela sabe, respondo baixinho para não ser confundido com os pró-liberdade de matar. E isto basta. O resto é confissão e perdão. Com Cristo.

Ainda na Veja, leio que aquele Procurador da República que certamente nunca comeu ninguém, Luiz Francisco de Souza, lançou um livro intitulado "Socialismo - Uma Utopiã Cristã". O Apocalipse descrito na Bíblia, já dizia: "Eis que aqui apresentarei alguns da Sinagoga de Satanás, que dizem que são judeus, e não são, mas mentem." (Apoc. 3:9)

Voltemos a Carpeaux. Cita ele, em um de seus ensasios (Leviatã, encontrado nos "Ensaios Reunidos", vol. I, editoras UniverCidade e Topbooks), um diálogo havido entre Frederico, o Grande e o bispo de Culm. Disse o Grande ao bispo que sua "esperança era de chegar um dia ao paraíso, talvez escondido por baixo do pálio de um dos seus bispos católicos". No que o bispo lhe respondeu: "Vossa Majestade encurtou tão implacavelmente a minha capa, que não posso esconder por baixo dela contrabando nenhum".

A César o que é de César, a Cristo a que é de Cristo. Palavras do Senhor, Graças a Deus. Mas muito mal usadas nesse nosso tempo. E cada vez mais São Paulo Apóstolo está com a razão: "Pois todos pecaram e estão privados da glória de Deus".

posted by Chico | 17:07 Comentários:

Quarta-feira, Janeiro 14, 2004



Johnny Cash. Ícone americano morto no final do ano passado. No fim da vida, já debilitado, gravou quatro discos de uma série intitulada American Recordings. Regravações de famosas canções americanas. Tem de tudo. Dos Beatles ao U2, passando pelo Elton John. Aliás, a versão de One, do U2 ficou uma obra prima.

Os discos devem ser ouvidos como um inventário da vida de Cash. Embora poucas canções sejam de sua autoria, todas ganham uma abordagem tão original de Cash, que acabam se tornando mais suas do que dos seus compositores originais. E talvez isto se explique pela entrega de Cash. Acho que entrega é um termo exato neste caso. Em cada canção, cada acorde tocado e sílaba cantada, percebe-se claramente um lamento, um testemunho, uma confissão de Cash.

Se é verdade que haverá um dia em que seremos obrigados a nos confrontar com o que fizemos de nossas vidas, este dia, para Cash, são condensados nesses quatro discos, em forma de música. A sinceridade de Cash me parece tão flagrante e tão bela que certas canções tomam ares transcendentais. Cash já não era deste mundo.

Uma canção em especial se destaca. É do último álbum da série. Hurt, do Nine Inch Nails, que citei no post abaixo. Com um violão e um piano poderosos, a versão de Cash para essa pesada canção é uma das pérolas mais maravilhosas já gravadas. A canção é tão tocante que é impossível ficar impassível diante da sua audição. Ouvir Cash, como que se confessando, rezando mesmo, cantar no embalo daqueles acordes vigorosos e sempre crescentes:

What have I become / My sweetest friend / Everyone I know / goes away in the end / And You could have it all / My empire of dirt / I will let you down / I will make you hurt.

Mas aqui, por um desses milagres do acaso, algo mais se juntou para dar significado a esta canção. Foi o videoclipe dela. Um dos mais belos já feitos. O clipe é todo entrelaçado por imagens de filmes de Cash, da juventude e carreira do cantor, com cenas de Cash, hoje, em casa, sozinho, ora sentado desolado em sua cadeira, ora no piano, ora com seu violão. Nas cenas finais, a esposa de Cash aparece atrás dele, simplesmente olhando-o, com carinho, resignada e comovida. Trechos da crucificação de Cristo também surgem. Era um homem se entregando. Mas com uma dignidade tamanha, que não poderia ser outro o resultado final.

O clipe simplesmente emociou os EUA inteiro. Bono, cantor do U2, disse que chorou mais nos 3 minutos do clipe do que em 2 horas de qualquer filme. O compositor da música, Trent Reznor, ficou sem palavras, profundamente comovido após assistir o clipe. O diretor do mesmo, conhecido de Cash de tempos idos, afirmou que não quis fazer um obituário do cantor, mas simplesmente contar sua história. Ainda bem que assim o fez, sem estrelismos e pretensões outras, porque é a vida de Cash o que jorra do clipe. Nada mais emociona do que um homem, no final de sua vida, ter a coragem de jogar suas pérolas aos porcos. Cash teve seus dias de porco, mas soube burilar como poucos suas pérolas. E caridosamente nos ofertou. Que ele nos redima. E que ele, como diz os últimos versos da canção, possa ter encontrado seu caminho, que evidentemente não seria neste mundo:

If I could start again / A million miles away / I would keep myself / I would find a way.

Assista o clipe aqui.

posted by Chico | 17:02 Comentários:

Domingo, Janeiro 11, 2004

Qualquer Canção

Rememorando os primeiros passos vacilantes deste blog, lembrei do que deveria ter sido o primeiro post, mas que nunca saiu do "papel". Escrevia eu sobre canções tristes. De amor, de sofrimento, etc. e tal. Mas nunca gostei dele. Por mais que eu escrevesse, nunca conseguia dizer o que realmente queria dizer. Ficou ali guardadinho na gaveta do HD, juntando poeira e clusters perdidos. Depois de um tempo, relia e achava pior do que antes. Nunca o publiquei.

E nem o vou porque agora o deletei para sempre. E por uma simples razão. Enquanto lia meus posts antigos e me lenbrava dos nunca publicados, aproveitei para ouvir antigas canções de antigos cd's que há tempos não eram convocados para o time titular. E descobri porque nunca gostei daquele primeiro post, por mais trabalhado como o foi. Diz aí Chico, que não sou eu, mas o Buarque:

Qualquer canção de dor / Não basta a um sofredor / Nem cerze um coração rasgado / Porém, inda é melhor / Sofrer em dó menor / Do que você sofrer calado.

Era isto mesmo. Jamais o que eu poderia falar sobre tais canções chegaria perto do significado de um dó menor ou lá menor. Preferi portanto, ficar calado. E é fácil compreender isto. Por exemplo, pegue-se o trecho final de "Fake Plastic Trees" dos malucos do Radiohead. Quando a letra "If I could be who you wanted.... if I could be who you wanted... all the time... all the time" surge daqueles arranjos delicados e tristíssimos, confesso que quase choro. Me emociono. Falaria disto naquele post, mas prefiro continuar ouvindo o outro Chico:

Qualquer canção de amor / É uma canção de amor / Não faz brotar amor e amantes / Porém, se essa canção / Nos toca o coração / O amor brota melhor e antes.

Tem quem ache "pobrinho" essas quaisquer canções de amor e de dor. "Só me emociono escutando Chopin, aquilo é música de verdade". Concordo, mas e dái ? Não dá para sofrer ou se emocionar escutando "Hurt", na versão do Johnny Cash ou "Detalhes" do Roberto Carlos (sim, "Detalhes" do Roberto Carlos. Estou me lixando para essa careta feia) ? É claro que dá.

Aliás, vai me desculpar, mas para sofrer pela bem amada sou mais os "pobrinho" mesmo. Aliás, desconfio daquelas "profundidades" sentimentais de uns e outros. Ninguém sofre de modo chique. Talvez se demonstre de modo chique. Na dor do fim, então lá no fundinho, aquele mesmo que você não tem coragem de ir quando tomou aquele pé na bunda, quem vai estar mesmo é o Tim Maia cantando "Me Dê Motivos".

Há quem discorde, por óbvio. Mas a esses nada digo, pois o Tim Maia os assombrará o suficiente. Por favor Chico, termina o que começamos:

Qualquer canção de bem / Algum mistério tem / É o grão, é o germe, é o gen da chama / E essa canção também / Corrói como convém / O coração de quem não ama.

posted by Chico | 20:09 Comentários:

Quarta-feira, Janeiro 07, 2004



Um ano já. Me diverti pacas por aqui. Enquanto assim continuar, não paro. Embora o tempo tenda a ser cada vez mais escasso. Datas assim nos põe a pensar e a revisar. Desde o princíipio aquela voz na minha cabeça berrava, foi diminuindo o volume, mas ainda permanece susurrando diabolicamente: "a quem você pensa que engana, hein, hein ?". Por vezes ela tenta me enganar, imitando Fábio Jr. e me dizendo o mesmo com outras palavras: "Que que há, que tá se passando com essa cabeça...".

A mim, penso que não me engano, embora não tenha tanta certeza. Alguns desavisados certamente já enganei. Alguns amigos também, embora nunca me tenham falado nada. Mas se bem conheço, caíram como patinhos. Não criei inimigos, ainda, surpreendentemente.

E lembrar que no meu período de faculdade, 2/3 dos 70 alunos da sala, se pudessem, me matariam sem dó nem piedade. Uma em especial que, tendo em vista seu talento nato para varrer o chão do salão de festas após uma churrascada, indignou-se quando joguei, do sofá onde estava sentado e bebendo a décima quinta lata, uma moedinha de cinquenta centavos em sua direção. Vai entender esta gente.

Mas acho que ainda arrumo um inimigo. Apareceram alguns analfabetos para arranjar confusão na caixinha de comentários, mas nada que chegue aos meus pés. Porque é claro, para ser inimigo o sujeito tem que ser tão bom quanto eu. (Ninguém se arrisca ? Ói que eu estou provocando, hein ? Tenho a pachorra de me achar o bonzão, embora meu carro não seja vermelho. Não vai demonstrar que está indignado ? É, quem tem cu, tem medo)

Mas enfim, voltando ao assunto. Escrevo porque tenho que escrever. Tenho que, entende ? É como almoçar, jantar, dormir, tomar banho... Muitos posts eram textos anteriormente escritos e perdidos no meu HD. Antes deste blog, cansei de enviar e-mail's incomodando amigos com considerações sobre os fatos do dia ou outras besteiras mais. Quando descobri os blogs, bem, arranjei mais um caderninho para escrever minhas bobagens. Só isto.

"Mas terás leitores !", um sopro de vento gelado sussurrou ao meu ouvido então. Pois que venham, respondi e continuo a responder. Não cobro nada e portanto, lê quem quiser. Não me envaideço da existência de leitores ou comentadores, ou me irrito com idiotas que se acham no direito de me xingar pelos cometários. Pago o preço, assim como pago para ter comida, água para o banho, etc.

Não tenho muito mais a acrescentar. Muito do que sei e até do que não sei já foi respondido pelos filósofos Calvin & Hobbes, o que me basta. "Por que escrevo ?" , pergunto-me socraticamente. E eles respondem:

"Calvin: - Este livro 'Ligue os Pontos' põe-me doído ! Olha para isto.
Hobbes: - É um pato.
Calvin: - Eu sei ! Quem quer desenhar um pato ? Eu é que não. Eles obrigaram-me ! Fui manipulado ! O meu talento artístico nato foi usado contra a minha vontade para dar a uma entidade coletiva a idéia base de ave aquática ! Que ultraje !
Hobbes: - Outro duro golpe na inteligência criativa.
Calvin: - A partir de hoje, ligarei os pontos à minha maneira."


"Disponibilizar ou não disponibilizar comentários por aqui ?", dialogo à la Hamlet com os dois, que me intrigam:

"Calvin: - E se alguém nos chamar de 'dupla de peripatéticos patéticos' ?!
Hobbes: - Nunca ouvi alguém dar-se ao trabalho de rimar insultos esquisitos.
Clavin: - Mas não devemos ter a resposta pronta ?"


"E se surgirem devotos ? E se eu correr o risco de virar um exemplo, um motivo, um modelo ? E se vierem atrás de respostas ?", devaneio à lá Nietsche ou Paulo Coelho, e eles me acalmam:

"Calvin: - 'Viver cada momento' é o meu lema. Nunca saberemos quanto tempo temos. Amanhã podemos estar atravessando uma rua e 'Blam', uma betoneira nos atropela ! Então nos arrependemos de ter esquecido os prazeres ! Eis porque eu quero 'viver cada momento'. Qual é o teu lema ?
Hobbes: - 'Sempre olhar antes de atravessar a rua'."


"Mas eu sou mau demais. Oh, horror, eu estrago a diversão dos outros em concursos públicos , em viagens de turismo , em amigos secretos ... Já mandei gente para o hospício, e se me deixassem, tinha matado outas ... Não seria este blog então um atestado ou um passaporte para o inferno ou, no mínimo, um caminho para a solidão e o esquecimento ?" - agostinianamente me confesso. Mas Calvin & Hobbes, assim como Marx pensava que tinha, tem resposta para tudo:

"Calvin: - Se o céu é bom e eu gosto de ser mau, como poderei ser feliz lá ?
Hobbes: - Como irias parar ao Céu se gostas de ser mau ?
Calvin: - Digamos que eu não faria o que queria fazer. Supõe que eu levaria uma vida irrepreensível. Supõe que negaria minha verdadeira natureza !
Hobbes: - Não sei se terei imaginação suficiente.
Calvin: - Talvez o Céu seja um lugar onde nos deixem ser maus."

Ah, me lembrarão aquela frase do Henfil, de que "se não houve frutos, valeu a beleza das flores...se não houve flores, valeu a sombra das folhas....se não houve folhas, valeu a intenção da semente". Desculpe, mas não tem nada disso não. Isto aqui é um cactus já plantado. Não se interessa em saber se você o acha belo ou horrendo. Ele sabe que é belo. Ele não precisa do seu regador de lisonjas ou do seu saco de esterco. Ele bebe água bem de vez em quando e só. Aguenta invernos e verões. A estiagem foi feita para ele. Teme apenas as enchentes. Porque não há quem sobreviva aos afagos dos tapinhas nas costas.

Quer saber, ele está de parabéns.

posted by Chico | 20:40 Comentários:

Domingo, Janeiro 04, 2004

2004, O Terceiro Depois De 2001

Queria ter algo a dizer sobre o ano novo. Foi uma semana agradável, pode ser ? Sem novidades. Tudo como era dantes no quartel de Abrantes.

Havia uma japonesa e seus chapéus, boinas, lenços, etc. Usava um para cada dia da semana, sendo um pela manhã, outro pela tarde. De noite ela repetia o da manhã. Lembrei-me das Sete Faces do Dr. Lao. Mas são lembranças doídas demais para mim, pois me recordo de Benji, o cão benfeitor. Sinto-me deveras emocionado neste instante. Melhor pensar nos Aventureiros do Bairro Proibido ou então no Curso de Verão. Bons tempos aqueles. Não sei se ainda o são. Trabalho sempre na parte vespertina e da sessão, me sobra os avisos na hora do Jornal Hoje.

A lei de Murphy já se fez presente neste novo ano. Ou o que mais explicaria aquela velha de 97 anos que foi encontrada com vida depois de oito dias debaixo dos escombros do terremoto no Irã ? Muito cuidado nos inícios de ano, é uma de minhas regras.

E qual foi o primeiro bebê de 2004 a nascer na sua cidade ? E quantos casos de queimaduras de primeiro grau por causa da bebida alcóolica ? Viu o tamanho do engarrafamento ? Além de Belo Horizonte, onde mais já teve enchente ? O começo de ano é bem chato.

Já posso tirar minha cueca branca nova ou ainda estamos sendo ridículos ? Uma velha quis pular as sete ondas na meia-noite. O mar estava agitado porque é gente boa. Foi preciso um salva-vidas. Ela se engasgou com as uvas-itália.

Por falar neles, aqui no Paraná três paulistas mocorongos viraram notícia. Final de tarde foram passear numa ilhota que fica a uns 50 metros de distância do continente e que é ligada por uma trilha de pedras. Veio a noite e a maré cobriu as pedras. Os mongos ficaram com medo de pular, dar duas braçadas e chegar no continente. Até Benji riria disso, vivo estivesse. Resultado: 8 salva-vidas chamados para socorrer os energúmenos, que ao menos se recusaram a dar entrevista. Engraçado é que de dia, não há 8 salva-vidas naquela praia...

O Brasil já começou sendo mais ridículo do que no ano passado. Agora, começamos a fichar os americanos que chegam por aqui. Assim como eles fazem conosco por lá. Depois nos gabamos de sermos anti-americanos. Ora, a gente imita tudo que vem de lá. E somos uma imitação bem chinfrim, porque pegamos em 90% dos casos, o que tem de pior, como acabamos de comprovar.

E isto é só o começo do ano. Ainda virão as falas do Lula, os bonés do Lula, as viagens do Lula, as gafes do Lula. Espero que ele peide em rede nacional desta vez. Tem gente feliz porque sá faltam três anos. Eu acho que são sete, mas deixe estar. E o primeiro nem foi tão ruim assim. Ainda falta 60% da nossa renda para ser confiscada. Eles começaram de leve.

Queria ter algo a dizer sobre o ano novo. Que venha 2005 é tentador, não ?

posted by Chico | 17:46 Comentários:
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